Terapia de Alto Fluxo (CNAF): planejamento para períodos de maior demanda respiratória
A cânula nasal de alto fluxo (CNAF) é hoje uma das estratégias reconhecidas de oxigenoterapia em cenários agudos, ao lado de outras modalidades não invasivas e invasivas, segundo diretriz clínica da AARC. Sua indicação depende da avaliação clínica do paciente — não de uma “regra de calendário”. Ainda assim, dados oficiais de monitoramento confirmam que existe, sim, uma sazonalidade real por trás do aumento de casos respiratórios graves no Brasil: o InfoGripe, boletim da Fiocruz que acompanha semanalmente a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) em todo o país, tem registrado no outono e no início do inverno o período de maior circulação do vírus sincicial respiratório (VSR) e da influenza A, com impacto relevante em crianças de até 2 anos. O ponto de atenção é que esse comportamento sazonal não é uniforme: em cada boletim, alguns estados aparecem com tendência de crescimento e outros seguem estáveis, o que reforça a mensagem central deste artigo — planejamento de capacidade deve ser guiado por indicadores monitorados, e não por uma suposição genérica de “todo inverno é pico em toda instituição”.
O desafio não é só clínico, é operacional
Quando a demanda por suporte respiratório sobe, a discussão clínica sobre qual paciente precisa de CNAF, ventilação não invasiva ou outra modalidade já está bem estabelecida em diretrizes e protocolos institucionais. O gargalo que costuma pegar as equipes desprevenidos é outro: a instituição tem equipamentos suficientes, com manutenção em dia, para sustentar um pico de utilização sem comprometer a continuidade assistencial?
A literatura de emergências e desastres em saúde já nomeou esse problema. O modelo de capacidade de resposta a picos de demanda (“surge capacity”), adotado por órgãos como a ASPR TRACIE (agência norte-americana vinculada ao Departamento de Saúde dos EUA), organiza o planejamento em quatro frentes complementares — conhecidas como os “4 S”: espaço físico disponível, equipe capacitada, insumos e equipamentos, e sistemas/processos de coordenação. É um modelo pensado originalmente para desastres e emergências de grande escala, mas sua lógica de organizar a resposta por essas quatro frentes é igualmente útil para picos sazonais menos dramáticos, como o aumento regional de casos respiratórios.
Dentro dessas quatro frentes, este artigo foca na frente de equipamentos, que costuma aparecer de forma recorrente em três pontos:
- Disponibilidade de equipamentos: parque próprio dimensionado para a operação “normal”, sem folga para picos.
- Manutenção e histórico técnico: equipamentos que entram em uso intensivo justamente no momento em que menos se pode arriscar uma parada por falha.
- Tempo de resposta: entre identificar a necessidade e ter o equipamento operando com segurança, existe um intervalo que precisa ser gerenciado, não improvisado.
Planejamento de capacidade: por onde começar
Um planejamento de capacidade respiratória minimamente maduro costuma envolver:
- Sinais de alerta institucionais. Ocupação de leitos, boletins epidemiológicos oficiais — como o InfoGripe da Fiocruz, que publica por semana epidemiológica e por estado o nível de incidência de SRAG — e séries históricas internas ajudam a antecipar, com incerteza gerenciável, uma tendência real de aumento de demanda na sua região específica.
- Inventário e situação técnica da frota. Saber, a qualquer momento, quantos equipamentos estão disponíveis, em manutenção preventiva, corretiva ou fora de uso, é pré-requisito para qualquer decisão de expansão de capacidade.
- Gatilhos de decisão pré-definidos. Definir, antes da pressão do dia a dia, a partir de que ocupação ou indicador a instituição aciona um plano de expansão temporária — evitando decisões reativas sob estresse operacional.
- Rotas de expansão temporária. Aqui entra a locação de equipamentos como uma das alternativas possíveis dentro do plano — não como resposta universal, mas como ferramenta para os cenários em que ampliar o parque próprio de forma permanente não faz sentido econômico ou operacional.
Locação como alternativa de expansão temporária
Em picos de demanda, a decisão entre comprar, alugar ou remanejar equipamentos internamente deve considerar o horizonte de tempo do problema. Publicações voltadas a profissionais de gestão de tecnologia em saúde (Healthcare Technology Management, 24×7 Magazine) já reconhecem a locação como resposta apropriada a aumentos temporários de demanda — incluindo o exemplo recorrente de hospitais que alugam ventiladores ou bombas de infusão durante períodos de maior circulação de vírus respiratórios, quando o volume de pacientes ultrapassa a capacidade normal da instituição. Essas mesmas publicações também trazem um alerta importante: uma locação pensada para resolver um problema pontual pode, sem o devido acompanhamento, se transformar em um uso de longo prazo mais caro do que a compra — por isso, todo contrato de locação emergencial deveria ter, desde o início, um critério claro de reavaliação (ex.: revisar a decisão a cada X meses de uso contínuo).
Vale destacar dois pontos que costumam gerar dúvida nessa decisão:
- A comparação não deveria se limitar à mensalidade. Guias de planejamento de capital em tecnologia médica, com referência ao framework do ECRI Institute, recomendam comparar o custo total de propriedade e uso — não apenas o valor da parcela mensal — considerando fatores como tempo de vida útil esperado, estabilidade da tecnologia, volume de uso previsto, importância estratégica do equipamento, condições contratuais de manutenção/atualização e custo operacional ao longo de todo o ciclo. Esse tipo de comparação estruturada é o que efetivamente diferencia uma boa decisão de compra/locação de uma decisão baseada só na urgência do momento.
- Enquadramento contábil não é automático. A forma como um contrato de locação é reconhecido contabilmente depende da natureza e dos termos específicos do contrato — normas como a IFRS 16 preveem, em muitos arrendamentos, o reconhecimento de direito de uso e passivo correspondente. Esse enquadramento deve ser avaliado com a área financeira da instituição, e não tratado como uma simplificação genérica de “capex vira opex”.
- A responsabilidade regulatória não desaparece com a locação. Segundo a RDC 509/2021 da Anvisa, os processos de gestão de tecnologias em saúde, documentação e governança sobre o uso dos equipamentos continuam sendo responsabilidade da instituição, independentemente de o equipamento ser próprio ou locado. Locar resolve a disponibilidade física do equipamento; não substitui os processos internos de gestão.
Por outro lado, um serviço de locação bem estruturado tende a agregar suporte técnico, manutenção e acompanhamento de desempenho do equipamento ao longo do período contratado — elementos que, segundo diretrizes da OMS sobre gestão de tecnologias médicas, fazem parte de qualquer estratégia sólida de manutenção, seja para frota própria ou locada. Isso pode reduzir a carga operacional da equipe interna durante um período de pico, mas o resultado concreto (tempo de resposta, disponibilidade, redução de indisponibilidade) varia por contrato, fornecedor e SLA acordado — por isso, evite tratar números de mercado como garantia aplicável a qualquer instituição; o dado que importa é o que consta no seu contrato.
Um checklist simples para começar
- Acompanhar, junto à vigilância epidemiológica local, indicadores oficiais de sazonalidade respiratória (como o boletim InfoGripe da Fiocruz) em vez de assumir um calendário fixo de picos.
- Revisar, junto à engenharia clínica, o inventário atual e a taxa de utilização da frota de suporte respiratório.
- Definir gatilhos de decisão (ocupação, número de pacientes em suporte, indicadores regionais) para acionar um plano de expansão, seguindo a lógica dos “4 S” (espaço, equipe, insumos/equipamentos e sistemas).
- Avaliar, com antecedência — e não durante a crise —, fornecedores de locação, prazos de disponibilização e condições contratuais, incluindo manutenção, suporte e custo total (não só a mensalidade).
- Definir, desde a assinatura do contrato emergencial, um critério de reavaliação periódica para evitar que uma locação temporária se torne, sem decisão consciente, um custo fixo de longo prazo.
- Alinhar com a área financeira o enquadramento contábil do contrato antes de assumi-lo como premissa de orçamento.
Conclusão
Picos de demanda respiratória vão continuar acontecendo — e, no caso brasileiro, os boletins oficiais de vigilância mostram que eles têm, sim, um componente sazonal real, embora distribuído de forma desigual entre regiões e ao longo do tempo. O diferencial não está em adivinhar exatamente quando ou assumir que toda instituição vive o mesmo padrão, mas em ter um plano de capacidade — apoiado em indicadores monitorados e em frameworks já testados pela área de gestão de emergências em saúde — que contemple alternativas de expansão temporária. Entre elas, a locação de equipamentos, avaliada com critério técnico, contábil e regulatório, e não como resposta automática para qualquer instituição.
A Oxy System atua como um dos parceiros possíveis nesse tipo de planejamento, oferecendo equipamentos para locação com suporte técnico ao longo do contrato. Conte com a equipe para avaliar, junto à sua instituição, se essa é a alternativa que faz sentido para o seu cenário específico.

